Obstipação: Causas, sintomas e soluções
Obstipação: quando o intestino abranda, o que pode estar por trás?
Passaram dois dias. Depois três. A barriga começa a ficar pesada, surge desconforto e ir à casa de banho transforma-se numa tarefa.
Mas será obstipação apenas não evacuar todos os dias?
Nem sempre.
A frequência intestinal varia bastante de pessoa para pessoa. Para algumas, evacuar diariamente é habitual; para outras, fazê-lo algumas vezes por semana pode ser perfeitamente normal.
O problema começa sobretudo quando há uma mudança do padrão habitual, fezes muito duras, esforço excessivo, sensação de evacuação incompleta ou dificuldade em expulsar as fezes.
E perceber porque é que isso está a acontecer é muitas vezes o primeiro passo para resolver o problema.
Porque ficamos obstipados?
O intestino precisa de três coisas essenciais para funcionar bem: água, conteúdo suficiente para formar as fezes e movimento intestinal adequado.
Quando uma delas falha, o trânsito intestinal pode começar a abrandar.
E quanto mais tempo as fezes permanecem no intestino, mais água é absorvida. Resultado?

É um ciclo que pode começar por razões muito simples.
Pouca fibra na alimentação
Fruta, legumes, leguminosas, cereais integrais e sementes ajudam a aumentar o volume e a consistência das fezes.
Quando a alimentação é pobre nestes alimentos, pode existir menos estímulo para o intestino avançar com o seu conteúdo.
Mas há um detalhe importante: aumentar muito a fibra sem aumentar também a ingestão de líquidos pode piorar o desconforto, causando gases, distensão abdominal ou fezes ainda mais difíceis de eliminar.
Pouca água? O intestino tenta poupá-la
Quando ingerimos poucos líquidos, o organismo procura conservar água.
O intestino absorve uma maior quantidade da água presente nas fezes, tornando-as progressivamente mais secas e duras.
Por isso, uma hidratação adequada faz parte das medidas mais simples para prevenir a obstipação.
Mexemo-nos menos. O intestino também
Longos períodos sentados, diminuição da atividade física, doença, repouso prolongado ou alterações na rotina podem reduzir o estímulo natural ao trânsito intestinal.
Não é necessário começar um programa intensivo de exercício.
Até uma caminhada regular pode ajudar a estimular o funcionamento intestinal em algumas pessoas.
Ignorar a vontade de evacuar pode criar um problema
A vontade surge numa altura inconveniente. Estamos no trabalho, fora de casa ou simplesmente adiamos.
E fazemos isso repetidamente.
Com o tempo, podemos tornar-nos menos sensíveis aos sinais enviados pelo intestino.
Quando surge vontade de evacuar, sempre que possível, é preferível não adiar durante muito tempo.
Criar uma rotina também pode ajudar. Para muitas pessoas, o intestino é naturalmente mais ativo após as refeições, sobretudo depois do pequeno-almoço.
Às vezes, a causa está no armário dos medicamentos
Vários medicamentos podem favorecer a obstipação.
É o caso, por exemplo, de alguns medicamentos utilizados para a dor, suplementos de ferro, determinados antidepressivos, alguns antiácidos e outros tratamentos.
Isso não significa que devam ser suspensos.
Se a obstipação surgiu depois de iniciar ou alterar uma medicação, fale com o médico ou farmacêutico. Muitas vezes existem formas de controlar o efeito sem comprometer o tratamento principal.

E nem sempre é apenas alimentação
Alterações hormonais, gravidez, envelhecimento, algumas doenças metabólicas ou neurológicas e alterações do funcionamento do pavimento pélvico também podem estar envolvidas.
Há pessoas que sentem vontade de evacuar e fazem esforço, mas continuam com a sensação de que as fezes não conseguem sair.
Nestes casos, aumentar sucessivamente a fibra ou tomar diferentes laxantes pode não resolver o problema, porque a dificuldade pode estar relacionada com a própria coordenação dos músculos utilizados durante a evacuação.
Por isso, obstipação persistente merece ser avaliada.
Estou obstipado. O que posso fazer?
O tratamento depende da causa, mas geralmente começa pelas medidas mais simples.
1. Rever a alimentação
Aumentar gradualmente o consumo de alimentos ricos em fibra pode ajudar:
· legumes e hortaliças;
· fruta;
· leguminosas;
· aveia e cereais integrais;
· sementes, quando adequadas à alimentação habitual.
A palavra importante aqui é gradualmente.
Uma mudança demasiado rápida pode provocar gases e distensão abdominal antes de o intestino se adaptar.
2. Beber líquidos suficientes
A fibra precisa de água para exercer adequadamente o seu efeito.
Por isso, aumentar a fibra mantendo uma ingestão insuficiente de líquidos pode produzir precisamente o efeito contrário ao pretendido.
3. Mexer o corpo
Caminhar, subir escadas, fazer exercício ou simplesmente reduzir os períodos prolongados sentado pode contribuir para um intestino mais ativo.
4. Criar tempo para ir à casa de banho
Com pressa, muitas pessoas fazem força durante alguns minutos e desistem.
Sempre que possível, aproveite os sinais naturais do organismo e evite transformar a ida à casa de banho numa batalha.
A posição também pode ajudar: elevar ligeiramente os pés num pequeno apoio pode aproximar o corpo de uma posição de cócoras e facilitar a evacuação em algumas pessoas.
E quando estas medidas não chegam?
É aqui que entram os laxantes.
Mas “laxante” não significa uma única coisa.
Existem diferentes grupos, com mecanismos de ação distintos.
Laxantes expansores do volume fecal
Aumentam o volume das fezes através da retenção de água, ajudando a estimular o trânsito intestinal.
Precisam de ser acompanhados por uma ingestão adequada de líquidos.

Laxantes osmóticos
Ajudam a reter água no intestino, tornando as fezes mais macias e facilitando a sua progressão.
São frequentemente utilizados em situações de obstipação, dependendo das características da pessoa e da duração dos sintomas.

Laxantes de contacto
Estimulam diretamente a atividade intestinal e podem ser úteis em determinadas situações.
No entanto, não é porque um medicamento produz um efeito mais rápido que é necessariamente a melhor escolha para utilização repetida.

Supositórios e enemas
Atuam sobretudo na zona final do intestino e podem ser úteis em situações específicas, particularmente quando existe dificuldade em eliminar fezes já presentes no reto.

Então qual é o melhor laxante?
A resposta é: depende.
Depende da idade, do tempo de evolução da obstipação, dos medicamentos utilizados, da consistência das fezes, de outros sintomas e até da forma como a pessoa descreve a dificuldade em evacuar.
Por isso, antes de escolher simplesmente “o laxante mais forte”, vale a pena perceber qual é o problema que estamos realmente a tentar resolver.
O farmacêutico pode ajudar a selecionar a opção mais adequada e identificar situações em que é preferível procurar avaliação médica.
Quando a obstipação deve ser avaliada por um médico?
Uma obstipação ocasional associada a uma mudança de alimentação, viagem ou alteração de rotina é muito diferente de um problema que surgiu sem explicação e se mantém.
Procure aconselhamento médico se existir:
· obstipação persistente ou uma alteração importante e recente do padrão intestinal;
· sangue nas fezes;
· perda de peso sem explicação;
· dor abdominal intensa ou persistente;
· vómitos;
· barriga muito distendida;
· febre associada aos sintomas;
· dificuldade significativa ou progressiva em evacuar;
· alternância frequente entre obstipação e diarreia;
· sensação repetida de obstrução ou necessidade de manobras para conseguir evacuar.
E se existir dor abdominal intensa, vómitos, grande distensão abdominal e incapacidade de evacuar ou eliminar gases, deve procurar assistência médica com rapidez.
Prevenir pode ser mais simples do que tratar
O intestino gosta de regularidade.
Uma alimentação variada, fibra suficiente, ingestão adequada de líquidos, atividade física e respeito pela vontade de evacuar ajudam a criar condições para que funcione de forma mais previsível.
Mas quando a obstipação aparece repetidamente, o objetivo não deve ser apenas obrigar o intestino a funcionar hoje.
A pergunta mais importante é:
porque é que ele deixou de funcionar como antes?
Na Farmácia da Liga, podemos ajudá-lo a perceber os fatores que podem estar a contribuir para a obstipação, rever a utilização de medicamentos e suplementos e aconselhar as opções disponíveis para cada situação.
Fale connosco. Começar pelo tratamento certo significa começar por fazer a pergunta certa.
Brígida Neves, Técnica de Farmácia