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PERGUNTAS FREQUENTES

Neurodivergência

Entendendo as diferenças, reconhecendo os sinais e sabendo como apoiar

 

Nos últimos anos, o termo "neurodivergência" tem ganhado espaço no dia a dia, nos consultórios e também no balcão da farmácia. Cada vez mais pessoas chegam com dúvidas sobre TDAH, autismo, dislexia, dispraxia ou TOC — seja para si próprias, seja para um filho, um familiar ou um paciente que acompanham.

 

O que é a neurodivergência?

A neurodivergência descreve variações naturais no funcionamento do cérebro humano: na forma como pensamos, aprendemos, comunicamos e processamos informação sensorial. O conceito parte da ideia de que não existe apenas "uma forma certa" de o cérebro funcionar: assim como há diversidade física, também há diversidade neurológica.

É importante sublinhar que a neurodivergência não é uma doença nem um defeito a corrigir, é uma diferença que, em alguns contextos, pode trazer desafios, mas também pontos fortes importantes, como criatividade, pensamento fora da caixa, atenção a detalhes ou grande capacidade de foco em áreas de interesse.

 

Principais tipos de neurodivergência

1. TDAH — Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade

O TDAH afeta a capacidade de regular a atenção, os impulsos e, em alguns casos, o nível de atividade. Pode manifestar-se predominantemente pela desatenção, pela hiperatividade/impulsividade, ou por uma combinação de ambas. Os sintomas mais comuns incluem dificuldade em manter o foco em tarefas longas ou pouco estimulantes, esquecimentos frequentes e desorganização, impulsividade nas decisões e nas respostas, inquietação física, dificuldade em ficar parado e dificuldade em gerir o tempo e cumprir prazos

2. TEA — Transtorno do Espectro Autista

O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento que influencia a comunicação, a interação social e o processamento sensorial. Fala-se em "espectro" precisamente porque se manifesta de forma muito diferente de pessoa para pessoa. Os sinais mais frequentes são dificuldade em interpretar linguagem não verbal (expressões faciais, tom de voz), preferência por rotinas e resistência a mudanças inesperadas, interesses intensos e muito específicos por determinados temas, sensibilidade aumentada (ou diminuída) a sons, luzes, texturas ou cheiros e comunicação social diferente do esperado socialmente.

3. Dislexia

A dislexia é uma dificuldade específica de aprendizagem que afeta principalmente a leitura, a escrita e a descodificação de palavras, sem estar relacionada com o nível de inteligência da pessoa. Os sintomas mais comuns são dificuldade em associar letras aos respetivos sons, leitura lenta ou com muitos erros, trocas de letras ou palavras semelhantes ao escrever e cansaço acentuado após tarefas de leitura prolongada.

4. Dispraxia (Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação)

A dispraxia afeta o planeamento e a execução de movimentos coordenados, podendo influenciar tarefas motoras finas (como escrever ou apertar botões) e grossas (como correr ou andar de bicicleta). Os sinais frequentes incluem dificuldade de coordenação motora e equilíbrio, dificuldade em organizar tarefas com várias etapas e letra pouco legível e dificuldade em usar talheres, tesouras ou atacadores.

5. Discalculia

A discalculia é uma dificuldade específica relacionada com o raciocínio matemático e a compreensão de números, medidas e quantidades, sendo os sintomas mais comuns: dificuldade em compreender conceitos numéricos básicos, dcnfusão frequente com sinais matemáticos e sequências e dificuldade em gerir dinheiro, horários ou medições.

6. Síndrome de Tourette

Trata-se de uma condição neurológica caracterizada por tiques motores e vocais involuntários, que podem variar de intensidade ao longo do tempo e ser influenciados pelo stress ou pelo cansaço. Apresenta-se com tiques motores (piscar os olhos, encolher os ombros, movimentos repetitivos), tiques vocais (pigarrear, emitir sons ou repetir palavras) e os sintomas aumentam de frequência em situações de ansiedade.

7. TOC — Transtorno Obsessivo-Compulsivo

O TOC caracteriza-se pela presença de obsessões (pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos e recorrentes) e/ou compulsões (comportamentos ou rituais mentais repetitivos realizados para aliviar a ansiedade que essas obsessões provocam). Os sintomas mais comuns incluem pensamentos intrusivos persistentes (contaminação, dúvida, simetria, entre outros), rituais de verificação, lavagem ou contagem, necessidade de organizar ou repetir ações até "sentir-se bem", elevado nível de ansiedade quando os rituais são impedidos e consciência, na maioria dos casos, de que os pensamentos ou comportamentos são excessivos, o que não impede a sua repetição.

 

Como lidar com a neurodivergência no dia a dia

Não existe uma "receita única" para lidar com a neurodivergência, porque cada pessoa é diferente e cada tipo de neurodivergência traz desafios próprios. No entanto, há princípios gerais que ajudam a criar um ambiente mais inclusivo e a melhorar a qualidade de vida.

Para a própria pessoa neurodivergente

·      Procurar uma avaliação profissional (psicologia, psiquiatria, neurologia ou terapia ocupacional, consoante o caso) para compreender melhor as próprias características

·      Criar rotinas e usar ferramentas de organização, como agendas, alarmes e listas de tarefas

·      Identificar e respeitar os próprios limites sensoriais e de energia

·      Valorizar os pontos fortes pessoais, não apenas as dificuldades

·      Considerar acompanhamento terapêutico contínuo quando recomendado

Para familiares, amigos e cuidadores

·      Informar-se sobre a condição específica, evitando generalizações e estereótipos

·      Comunicar de forma clara, direta e paciente

·      Adaptar o ambiente (luz, som, rotina) sempre que possível

·      Celebrar pequenas conquistas e evitar comparações

·      Envolver a pessoa nas decisões que lhe dizem respeito

O papel da farmácia e do farmacêutico

A farmácia é, muitas vezes, um dos primeiros pontos de contacto de saúde na comunidade, o que a torna um espaço privilegiado para apoiar famílias e pessoas neurodivergentes:

·      Esclarecer dúvidas sobre a toma correta de medicação (por exemplo, em casos de TDAH ou TOC), horários e possíveis efeitos secundários

·      Sinalizar, quando pertinente, a importância do acompanhamento médico e psicológico especializado

·      Adaptar o atendimento: falar de forma clara e objetiva, reduzir estímulos quando possível e ter paciência com tempos de resposta diferentes

·      Disponibilizar informação escrita simples para apoiar a adesão à terapêutica

·      Encaminhar para associações e grupos de apoio locais, quando existentes

 

Conclusão

Compreender a neurodivergência é um passo essencial para construir uma sociedade e também uma farmácia mais inclusiva e acolhedora. Reconhecer os sinais, respeitar as diferenças e saber onde procurar ajuda fazem toda a diferença na vida de quem convive, todos os dias, com uma forma diferente de sentir e de pensar o mundo. Se tiver dúvidas sobre medicação, sintomas ou onde procurar apoio especializado, a nossa equipa está sempre disponível para ajudar.

 

Iolanda Lázaro, Farmacêutica  Especialista em Análises Clínicas e Genética Humana 

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